Antes de ser notícia, antes de seu nome aparecer associado a uma estatística e de sua morte ser lembrada nos registros da Justiça, Cenira Angélica Ventura da Silva era professora.
Conhecida como Angélica, ela tinha 39 anos e fazia da educação parte de sua vida. Era servidora efetiva do município de Viçosa, em Alagoas, onde exerceu a profissão de professora. Documentos públicos do município registram seu vínculo com a rede municipal de ensino.
Para quem convivia com ela, porém, sua história não cabia no cargo que ocupava. Durante o julgamento do homem acusado de seu assassinato, realizado em julho de 2026, seu irmão, Alexandre Henrique Ventura, falou sobre a mulher que a família conhecia. Disse que Angélica era uma pessoa querida, daquelas que tinham facilidade de conquistar o afeto de quem estava ao redor, e que estava sempre disposta a ajudar.
É essa mulher que precisa permanecer quando a notícia termina.
Em 2 de março de 2018, a vida de Angélica foi interrompida. O crime aconteceu em Viçosa e, segundo a denúncia apresentada pelo Ministério Público de Alagoas, foi cometido pelo então companheiro da professora, em um contexto de violência doméstica e familiar. Ela tentou escapar da agressão, mas foi alcançada na rua. O assassinato provocou mobilização de familiares, trabalhadores da educação e entidades de representação da categoria. Ainda em 2018, o Sindicato dos Trabalhadores em Educação de Alagoas (Sinteal) cobrou das autoridades a elucidação do crime e a prisão do acusado, que permaneceu foragido por mais de cinco anos.
José Ricardo dos Santos foi localizado e preso em dezembro de 2023, no Mato Grosso. O julgamento só aconteceu mais de oito anos depois do assassinato. Em 29 de julho de 2026, o Tribunal do Júri de Viçosa o condenou a 29 anos, oito meses e 16 dias de prisão, em regime fechado. Mas uma condenação não devolve uma professora à sala de aula, nem os dias que ficaram por viver. Não devolve à família a presença de Angélica. Não devolve à comunidade de Viçosa a mulher que, segundo seu irmão, era reconhecida pela disposição em ajudar.
Quando uma mulher é assassinada, a violência não interrompe apenas um corpo. Interrompe relações, projetos, trabalho, convivências e futuros. E, quando essa mulher é uma professora, também se rompe uma presença que fazia parte da formação de outras pessoas e da vida de uma comunidade.
É essa existência que a série AUSÊNCIAS se recusa a deixar desaparecer.
Angélica não é apenas o nome de uma vítima de feminicídio.
Foi professora. Foi irmã. Foi amiga. Foi uma mulher que, para quem teve a oportunidade de conhecê-la, deixou marcas de afeto e cuidado.
A violência levou sua presença. Mas não pode levar sua história.

