“Eu arrumei o cabelo dela e nunca mais a vi”: a ausência de Laísa Alves em uma família marcada pela dor

Por Thais Vital e Julyane Leão

No dia 4 de dezembro de 2022, Laísa Alves saiu para uma festa no município de Crato, no interior do Ceará. Tinha apenas 20 anos. Era conhecida pela família como uma jovem estudiosa, trabalhadora, carinhosa e determinada. Sonhava com independência financeira, havia feito curso de manicure e buscava construir sua própria vida.

Ela nunca mais voltou para casa.

Dois dias depois, o corpo de Laísa foi encontrado soterrado em uma cacimba desativada, na zona rural do município. O laudo cadavérico apontou lesões provocadas por facadas no pescoço. O principal suspeito era o companheiro da jovem, também seu primo, apontado pela família como autor do feminicídio e da ocultação do cadáver.

Para a irmã, Larissa Alves, a tragédia não começou naquele dezembro. Ela vinha sendo anunciada por anos de controle, isolamento e violência.

“Antes dele, ela tinha paz na vida dela. Depois, ela não podia nem sair comigo. A gente aconselhava, conversava, mas ela dizia que um dia aquilo ia acabar.”

Segundo a família, o relacionamento era marcado por ciúmes excessivos, vigilância constante e restrições à autonomia de Laísa. O companheiro controlava suas saídas, acompanhava suas conversas e limitava até mesmo seu trabalho como manicure.

“Ela só podia atender em casa. Se fosse atender em outro lugar, tinha que ser acompanhada por ele. Nem ao supermercado ela podia ir sozinha.”

As marcas da violência apareciam no corpo, mas raramente eram verbalizadas. Como ocorre com muitas mulheres em relações abusivas, o medo, a dependência emocional e as pressões constantes dificultavam a ruptura.

A mãe e os familiares percebiam os sinais.

“A gente via que ela estava sofrendo. Quando ninguém estava perto, ele fazia ela acreditar que estava errada. Era uma pressão constante.”

Na manhã seguinte ao desaparecimento, Larissa estranhou a ausência da irmã.

“Eu arrumei ela, arrumei o cabelo, coloquei a pulseirinha dela para ir à festa. No outro dia, todo mundo estava em casa, menos ela.”

A irmã foi até a residência do companheiro. Encontrou-o escondido em um quarto, com arranhões pelo corpo. Ao ser questionado sobre o paradeiro de Laísa, ouviu uma resposta que nunca acreditou.

“Ele disse que ela tinha fugido com outro homem. Naquele momento eu sabia que ele tinha matado minha irmã.”

Enquanto a família organizava buscas e campanhas nas redes sociais, Laísa já estava morta.

A ausência que adoece

A série Ausências busca compreender os impactos do feminicídio para além dos números. Em Crato, a morte de Laísa deixou marcas profundas em toda a família.

Sem a possibilidade de uma despedida digna, a violência continuou produzindo sofrimento mesmo após o crime.

“Não teve como fazer velório. Não teve como fazer enterro. Não teve como se despedir.”

Larissa relata que sua vida mudou completamente desde então.

“Isso foi um trauma que destruiu minha família. Hoje eu tomo remédio controlado, tenho ansiedade. É uma dor que afeta minha relação com meus filhos, comigo mesma. Eu nunca passei por algo tão doloroso.”

O feminicídio não interrompe apenas a vida da mulher assassinada. Ele reorganiza famílias inteiras em torno da ausência, produz adoecimentos físicos e emocionais, rompe vínculos e deixa marcas permanentes em quem fica.

Durante anos, o acusado negou participação no crime. Apenas durante o julgamento, diante da mãe e da irmã de Laísa, confessou a autoria.

Para a família, entretanto, a condenação não foi capaz de reparar a violência sofrida.

A sensação é de que nenhuma sentença consegue responder à brutalidade de um crime que retirou uma jovem de 20 anos de sua família, de seus sonhos e de seu futuro.

Quando a violência tenta apagar a memória

Para Ana Verônica Barbosa Isidório, integrante da Frente de Mulheres do Cariri, o feminicídio não termina com o assassinato. Existe também uma tentativa sistemática de apagar a memória das vítimas e silenciar suas histórias.

“Não falar sobre as perdas, ou falar pouco sobre elas, eu acredito que vem também de uma relação cultural de apagamento da memória da vida, mas também da memória dessas mulheres. Quando uma mulher é vítima de feminicídio, o que a gente tem percebido é que muitos casos acontecem com requintes de crueldade, como se fosse uma demonstração para a sociedade de quem manda.”

Segundo ela, a violência continua após o crime por meio do esquecimento e, muitas vezes, da culpabilização das próprias vítimas.

“A sequência disso é apagar a existência e a memória dessas mulheres. Há uma organização coletiva do Estado, da sociedade e das pessoas para apagar a memória dessa mulher ou até mesmo deturpar sua história, como se ela fosse culpada pelo que aconteceu.”

Por isso, movimentos de mulheres da região têm buscado preservar as trajetórias das vítimas, dialogar com as famílias e garantir que seus nomes continuem sendo lembrados.

“A gente tem companheiras pesquisando essas histórias, organizando dados e levando os nomes dessas mulheres para as ruas. Sempre que realizamos uma ação, convidamos as famílias para estar conosco. Porque falar sobre elas é também uma forma de lutar contra esse apagamento.”

A história de Laísa Alves é uma dessas histórias que insistem em permanecer. Lembrar quem ela era — a jovem estudiosa, trabalhadora, carinhosa, cheia de planos para o futuro — é também um ato de justiça. É recusar que o feminicídio transforme uma vida inteira em apenas uma estatística policial.

Como destaca Ana Verônica, falar sobre essas mulheres é enfrentar uma estratégia histórica de silenciamento.

“Não falar ou falar pouco sobre esses acontecimentos é uma estratégia de apagamento da memória, da vida e da existência dessas mulheres.”

É justamente contra esse apagamento que a série Ausências se levanta: para que Laísa Alves continue sendo lembrada não pela forma como morreu, mas pela vida que viveu, pelos sonhos que cultivou e pela falta que deixou para quem a amava.

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