Em 19 de novembro de 2024, Hailie Vitória Barbosa da Silva, de 20 anos, foi vítima de feminicídio em João Pessoa, na Paraíba. Em maio de 2026, o responsável pelo crime foi condenado pelo Tribunal do Júri. A decisão judicial representou um importante reconhecimento da violência cometida contra Hailie, mas não foi capaz de reparar a perda vivida por sua família.
Por trás dos dados, dos processos e das manchetes, existia uma jovem cheia de sonhos, planos e relações construídas ao longo de uma vida.
Nesta série, o Observatório da Rede de Mulheres Negras do Nordeste escolhe olhar para além dos números e processos judiciais. Cada feminicídio interrompe uma trajetória e afeta comunidades inteiras. Por trás de cada caso existe uma história que merece ser lembrada.
Para sua mãe, Elisângela Ramos, Vitória era muito mais do que a jovem mencionada nos noticiários.
“Ela era filha, neta, sobrinha, prima, amiga. Um ser humano especial”, recorda.
Vitória cresceu enfrentando dificuldades, mas, segundo a mãe, nunca permitiu que as circunstâncias definissem seus caminhos. Era descrita como uma jovem determinada, afetuosa e cheia de planos para o futuro.
“Era uma menina corajosa, cheia de sonhos”, conta Elisângela.
Entre amigos e familiares, exercia uma liderança natural. Era alguém que reunia pessoas, incentivava quem estava ao seu redor e cultivava relações profundas. Sua presença marcava os espaços que ocupava. Mas é na rotina interrompida que a dimensão da ausência se torna mais evidente.
Elisângela fala da filha como quem revisita uma parceria construída ao longo de toda uma vida.
“Era eu e ela. Nós tínhamos nossa família, mas sempre fomos nós duas para tudo.”
A relação entre mãe e filha foi fortalecida pelas dificuldades que enfrentaram juntas. Durante a pandemia, passaram por um período de instabilidade habitacional e precisaram reconstruir suas vidas. Nesse contexto, Vitória alimentava um projeto que simbolizava autonomia.
“O sonho dela era comprar uma casa ou reformar a minha. A gente tinha conseguido adquirir nossas casas praticamente no mesmo período. Ela queria construir a vidinha dela.”
A casa representava a concretização de um projeto de vida, interrompido pela violência. Quando fala sobre a ausência da filha, Elisângela evita generalizações. Reconhece que cada pessoa da família vive o luto de forma diferente.
Segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, mulheres jovens continuam entre as principais vítimas da violência letal de gênero no país. Para organizações de mulheres negras, lembrar dessas trajetórias é uma forma de enfrentar a naturalização dos feminicídios e reafirmar que cada vítima tinha uma história, vínculos afetivos, sonhos e projetos de futuro.

