Uma menina alegre, estudiosa, apaixonada pela família e que sonhava em ser jogadora de futebol
Antes de seu nome aparecer nas páginas policiais, havia Sara Caroliny Borges Gomes da Silva. Nascida em 14 de julho de 2005, ela cresceu no Poty Velho, em Teresina, onde era conhecida por sua alegria, dedicação aos estudos e proximidade com a família e a vizinhança.
Gostava de passear com os familiares, brincar com crianças e sonhava em ser jogadora de futebol. Era especialmente ligada à irmã, Aquarela, e ajudava a cuidar do pai, que enfrentava problemas de saúde.
“Ela era uma menina estudiosa, nunca repetiu de ano. Alegre, brincalhona, um raio de sol por onde passava. Todos gostavam muito dela. Era respeitadora, amiga, companheira e bastante prestativa”, lembra Solimar Mafrense, sua mãe.
Aos 15 anos, Sara estava grávida de sete meses. Tinha uma vida ainda em construção quando desapareceu, em 11 de novembro de 2020.
A violência que interrompeu sua vida
Dois dias depois, em 13 de novembro, Sara foi encontrada morta nas proximidades do Rodoanel de Teresina, na região da Usina Santana/Nova Olinda, zona sudeste da capital piauiense.
Segundo a investigação e a denúncia acolhida pela Justiça, Frank Bruno Gonçalves Silva, apontado como pai da criança, recusava-se a assumir a paternidade. O Ministério Público do Piauí sustentou que o crime foi premeditado e que Sara foi atraída para o local, onde sofreu agressões que resultaram em sua morte. O processo também registrou aborto provocado por terceiro e ocultação de cadáver. Um segundo homem chegou a ser investigado como possível comparsa. Em 2022, Gerson da Conceição Sousa foi impronunciado e teve a prisão preventiva revogada. Os detalhes da violência integram o processo judicial, mas não devem ser aquilo que define Sara.
Sua história é maior do que o crime que interrompeu sua vida.
O luto que ficou no Poty Velho
A morte de Sara deixou marcas na família e na comunidade onde ela cresceu.
“A família toda sente falta dela, pois ela era uma pessoa muito especial para todos nós, os amigos e toda a vizinhança”, afirma Solimar.
Segundo a mãe, o Poty Velho permanece marcado pela perda. Sendo assim, o feminicídio não termina com a morte. Ele continua produzindo consequências para quem fica: na rotina da família, nos vínculos comunitários e nos futuros que deixam de existir.
Uma longa trajetória até a condenação
O caso foi levado ao Tribunal do Júri. Em outubro de 2022, Frank Bruno foi condenado a 28 anos, nove meses e dez dias de prisão pelos crimes relacionados à morte de Sara, ao aborto sem consentimento da vítima e à ocultação de cadáver. Posteriormente, a decisão foi anulada.
Em 28 de março de 2025, ocorreu um novo julgamento. Frank Bruno foi novamente condenado, desta vez a 26 anos e nove meses de reclusão, em regime fechado. A decisão também estabeleceu o pagamento de R$ 100 mil de indenização aos familiares de Sara.
Segundo Solimar, entretanto, a família não recebeu o valor nem foi procurada sobre o pagamento.
“Foi falado que eles iriam me pagar uma indenização de 100 mil, mas ninguém falou comigo e minha família nunca recebeu dinheiro nenhum.”
A situação mostra que a busca por justiça não termina necessariamente com uma sentença. Para as famílias, permanecem o direito à informação, ao acompanhamento do processo e ao cumprimento das decisões judiciais.
“Eu não enterrei uma filha”
Seis anos depois, a dor continua presente. Solimar conta que encontrou na fé uma forma de seguir. “Deus nos acolheu e vem cuidando de todos nós para seguirmos em frente.” Mas seguir em frente não significa esquecer.
Ao falar sobre a filha, ela afirma:
“Para mim, eu não enterrei uma filha. Eu enterrei um corpo. Para mim, ela vive em um lugar muito lindo com o meu neto e que um dia eu vou encontrar eles.”
A frase traduz uma ausência que não cabe em estatísticas ou processos.
Para além da notícia
Casos de feminicídio frequentemente reduzem mulheres e meninas às circunstâncias de suas mortes. Seus nomes aparecem associados ao crime, enquanto suas histórias desaparecem. A série AUSÊNCIAS propõe outro caminho: olhar para as vidas interrompidas e para aquilo que permanece depois delas.
No caso de Sara, permanece a memória guardada pela família, pelos amigos e pelo Poty Velho.
Permanece também a lembrança de uma adolescente que tinha sonhos, afetos e um futuro pela frente.
Antes da ausência, havia Sara.
E lembrar sua vida é uma forma de impedir que a violência seja a única coisa contada sobre ela.

