Graça e Talita: vidas interrompidas e uma família que segue esperando por justiça

Há ausências que o tempo não consegue preencher. Cinco anos após o assassinato de Graça e de sua filha, Talita, no Maranhão, a família segue convivendo com a dor da perda e com a espera por justiça.

Para MaryRose de Oliveira dos Santos, irmã de Graça, lembrar é uma forma de manter vivas duas vidas que foram interrompidas pela violência. Mais do que vítimas de um crime, Graça e Talita eram parte fundamental de uma família marcada pelo afeto, pela união e pelos sonhos compartilhados.

“Graça irradiava alegria. Era uma mulher linda, cheia de vida, muito querida por todos. Ela lutou muito para conquistar seus objetivos e sonhava em dar uma vida digna para nossa mãe, para sua filha e para toda a família”, recorda.

A trajetória de Graça foi construída com esforço e superação. Filha de uma mulher que ficou viúva ainda jovem, ela enfrentou dificuldades desde cedo. Para continuar os estudos, precisou morar com parentes. Mais tarde, conseguiu trabalhar, construir sua autonomia e se tornou um importante apoio para a família.

“Ela cuidava de todos nós. Era uma mãe dedicada, uma filha presente, uma irmã atenciosa. Sempre encontrava uma forma de ajudar, seja com carinho, com atenção ou financeiramente”, conta MaryRose.

Segundo a irmã, a vida de Graça mudou após o início de um relacionamento marcado por sofrimento emocional, humilhações e episódios que afetaram profundamente sua saúde mental. A mulher alegre e cercada pela família passou a enfrentar situações que a afastaram da convivência que sempre valorizou.

Em 2021, Graça e Talita tiveram suas vidas interrompidas por um crime que chocou familiares e pessoas próximas. Desde então, a família convive não apenas com o luto, mas também com a espera por uma resposta do sistema de justiça.

Passados cinco anos, o processo ainda não foi julgado. De acordo com os familiares, o acusado responde em liberdade enquanto o julgamento é sucessivamente adiado.

“Vivemos revoltadas com essa situação. Além da saudade, existe a dor de não ver o caso concluído. A sensação é de impunidade”, afirma MaryRose.

Apesar da ausência física, Graça permanece presente nas lembranças da família. As reuniões, as conversas, os gestos de cuidado e a alegria que ela espalhava continuam vivos na memória de irmãs, sobrinhos e de todas as pessoas que compartilharam sua trajetória.

“Ela continua presente em nossos corações. A gente nunca esquece”, diz a irmã.

A história de Graça e Talita encerra a série AUSÊNCIAS, iniciativa que resgata as memórias de mulheres negras vítimas de feminicídio no Nordeste a partir das vozes de seus familiares. Ao lembrar quem eram essas mulheres antes da violência, a série reafirma que suas vidas não podem ser reduzidas às circunstâncias de suas mortes.

Graça e Talita tinham sonhos, afetos, projetos e histórias. Lembrar de suas vidas é também exigir justiça e reafirmar que nenhuma mulher negra deve ser esquecida.

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