Quase dois anos após o feminicídio e quatro júris remarcados, família de Tainara Santos segue à espera por justiça

Tainara  foi vista pela última vez em outubro de 2024. O caso é investigado como feminicídio e a próxima data do júri está marcada para 19 de agosto. 

Por Brenda Gomes e  Patrícia Rosa

Tainara Santos tinha 27 anos, era trancista, mãe de duas meninas e moradora da comunidade quilombola de Acutinga Motecho, no território da Bacia do Iguape, em Cachoeira (BA). Reconhecida pelo cuidado com mulheres e crianças de sua comunidade, Tainara foi vista pela última vez por familiares e moradores no dia 9 de outubro de 2024. Na ocasião, ela estava acompanhada do ex-companheiro, George Anderson Santos, contra quem já havia registrado queixa e solicitado medida protetiva, e de outros dois homens. Depois daquele dia, Tainara não foi mais vista. 

De acordo com inquérito, o caso é reconhecido como feminicídio, mesmo sem a localização do corpo. George, que é apontado como principal suspeito, foi preso preventivamente, desde o dia 19 de dezembro de 2024, aguardando o julgamento, que já foi adiado duas vezes. Agora, o júri teve uma quarta data anunciada, no dia 19 de agosto, no Fórum Augusto Teixeira de Freitas, em Cachoeira.

Meses antes de sua morte, ela chegou a registrar queixa contra ele, denunciando o relacionamento abusivo e as violências sofridas. O principal suspeito do crime apresentou à polícia três versões do que teria ocorrido no dia do desaparecimento da vítima.

Imagem: Arquivo da Família

A comunidade nunca mais foi a mesma

A família, amigos e a comunidade vivem sem a presença de Tainara e com a angústia da espera por justiça. Itamara Santos, irmã da vítima, fala que ela era uma mulher empoderada, dedicada e uma ótima mãe para suas duas meninas.

“Muito extrovertida, todo mundo gostava dela. Por onde ela passava, ninguém ficava triste. Ela era muito amiga e gostava de ajudar as pessoas. O sonho dela era organizar a casa para dar um conforto melhor às filhas. Ela trançava cabelo e já estava fazendo um curso para se especializar mais em penteados.”

Na comunidade, Tainara era conhecida pela alegria e pela proximidade com as pessoas, “ela só andava de casa cheia, ela não tinha besteira, era muita alegre e palhaça, ninguém ficava triste onde ela estava.”

Joyce Souza, coordenadora do projeto Quilomba – Pela Vida das Mulheres Negras do Instituto Odara, fala do impacto da perda de uma jovem negra, quilombola e com sonhos em construção.

“Sentimos pelo corte abrupto da possibilidade de sonhos serem realizados, de duas crianças crescerem sob os cuidados e amor materno. A família perde o que poderia ser a primeira profissional reconhecida como trancista na região, aquela com autonomia financeira para educar suas filhas, cursar uma universidade, caso quisesse. Perdemos o que Tainara poderia ter sido e transformado ao seu redor. Perdemos o que investimos em nossas meninas.”

A família segue sem respostas

Itamara fala da angústia da falta de notícias e do crime sem respostas.

“Enquanto ele está preso e recebendo visitas, a nossa família segue sem nenhuma notícia, com minha mãe sofrendo todos os dias e minhas sobrinhas em acompanhamento psicológico. Eu quero justiça. Quero que o júri aconteça e que a gente tenha alguma resposta sobre o que ele fez com minha irmã, mesmo sem acesso aos restos mortais. O que fica é a dor que não passa e a sede de justiça.”

Joyce ressalta ainda o quanto a família e a comunidade de Tainara seguem marcadas pela violência e pelo abandono. “Inclusive pela falta de acesso a direitos básicos, como assistência social, saúde integral, educação, lazer e cultura. Sem isso, qualquer sentença será insuficiente. O Estado também deve ser responsabilizado pela violência e violações sofridas.”

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