Por Thais Vital/ABAYOMI-PB
Na casa onde cresceu, em Ingá, no Agreste paraibano, a ausência de Elida do Nascimento tem forma, voz e rotina. Ela aparece no silêncio da mãe, nas lágrimas da irmã mais nova quando seu nome é mencionado, nas mensagens de WhatsApp que amigos insistem em reler e até em um hábito que desapareceu junto com ela: as “meninas da touca”, como eram conhecidas Elida e a amiga Kennia Ferreira quando saíam de moto pela cidade usando toucas brancas para proteger os cabelos.
Hoje, restaram as lembranças.
Aos 22 anos, Elida já havia construído muito do futuro que sonhava desde criança. Trabalhava como cuidadora na rede municipal de ensino, era técnica em enfermagem, tinha um salão de beleza próprio e uma clientela consolidada. No domingo seguinte ao feminicídio, já estava tudo organizado para uma mudança que simbolizava um novo começo: ela levaria seu salão para Ingá, onde pretendia ampliar o negócio e seguir conquistando sua independência financeira.

Esse futuro foi interrompido na madrugada de 6 de dezembro de 2025. Elida foi assassinada com dez tiros disparados pelo ex-marido, um policial militar, durante um processo de separação. Segundo a Polícia Civil, os dois estavam em processo de divórcio havia cerca de um mês. Após uma discussão iniciada em um bar, o crime aconteceu na rodovia PB-095, entre Massaranduba e Serra Redonda. O policial confessou o assassinato e foi preso.
Mas, para quem conviveu com Elida, essa não é a história que define quem ela foi.
“Ela sempre quis construir uma vida melhor”
Quando fala da amiga, Kennia Ferreira faz questão de começar pela vida, nunca pela violência. “Elida era uma pessoa extraordinária. Todo mundo gostava dela. Mais do que isso, ela era filha, irmã e amiga. Acima de tudo, era muito comprometida em construir um futuro digno.”
Filha de uma família humilde, Elida aprendeu cedo que o trabalho seria o caminho para realizar seus sonhos. Ainda criança, começou a cuidar da filha de uma conhecida da família. O primeiro pagamento, lembra Kennia, foi motivo de orgulho.
“Ela ficou feliz da vida. Desde muito cedo queria conquistar as coisinhas dela.”
Aos 15 anos, começou a trabalhar em um salão de beleza. Foi ali que descobriu uma paixão que mudaria sua vida.
“Ela era muito dedicada. Queria aprender tudo o que ensinavam. Foi incentivada a fazer o curso de cabeleireira e realizou o sonho de abrir o próprio salão.” Em pouco tempo, conquistou uma clientela fiel em Serra Redonda e também em Ingá. Mesmo tendo inaugurado o espaço há apenas um ano, a agenda já estava cheia.
“O maior sonho dela era ser uma grande profissional. E ela já estava conseguindo.”, disse Kennia.
A rotina de Elida impressionava quem estava ao seu redor. Pela manhã, trabalhava como cuidadora em uma creche municipal. O carinho com as crianças fez com que fosse transferida para acompanhar estudantes com Transtorno do Espectro Autista (TEA), função pela qual era constantemente elogiada. À tarde, atendia no salão de beleza. À noite, seguia para Campina Grande para cursar o técnico em enfermagem.
“Eu ficava de boca aberta com a disposição dela. Trabalhava na escola, atendia no salão e ainda estudava à noite. Concluiu o curso com muito esforço. Ela sempre dizia que queria mudar de vida.” A escolha pela enfermagem também carregava uma história de afeto. Após perder o pai de forma repentina, Elida passou a se interessar pela área da saúde, buscando transformar o luto em cuidado.
A filha que virou o pilar da família
Quando o pai morreu, a vida de Elida mudou completamente. Além da dor da perda, vieram responsabilidades que ultrapassavam sua idade. Ela passou a ajudar nas despesas da casa, onde viviam a mãe, a irmã pequena e o irmão, que enfrenta problemas de saúde.
“Ela se tornou o pilar da família”, resume Kennia. Mesmo depois de casar e mudar de cidade, nunca deixou de acompanhar de perto as necessidades da mãe.
“Se precisasse resolver qualquer coisa, era Elida. Se a mãe precisasse de ajuda, era para ela que corria. Ela nunca deixou de cuidar da família.” Seu maior sonho não era apenas crescer profissionalmente. Ela queria proporcionar uma vida mais confortável para quem amava.
A mudança que nunca aconteceu
Poucas pessoas sabiam que o domingo seguinte ao crime marcaria um novo capítulo na vida de Elida. Tudo estava preparado para a mudança do salão para Ingá. Era um passo importante para ampliar os atendimentos, ficar mais próxima da família e consolidar a carreira construída com tanto esforço.
A mudança nunca aconteceu.

As ausências que ficaram
Para Kennia, o feminicídio não deixou apenas uma família enlutada. Deixou uma comunidade incompleta.
“A gente sente falta dela correndo de um lado para o outro para conciliar trabalho e estudo. Sente falta do sorriso, das brincadeiras, daquele bom dia que ela dava todos os dias.”
Ela lembra que nunca via a amiga mal-humorada.
“Ela podia estar passando por qualquer dificuldade, mas sempre chegava sorrindo.”
Entre as lembranças mais carinhosas está um costume compartilhado pelas duas: como andavam muito de motocicleta e tinham cabelos longos, usavam toucas brancas para protegê-los. A cena virou marca registrada.
“Por onde a gente passava, o pessoal dizia: ‘Lá vão as meninas da touca’. Hoje ninguém faz mais isso. Foi um hábito que se foi com ela.”
É justamente esse tipo de ausência que dificilmente aparece nas estatísticas do feminicídio.
Desaparecem os apelidos, os caminhos percorridos juntas, as conversas de fim de tarde, os conselhos, as mensagens respondidas ao final do expediente e os pequenos rituais que ajudam a construir uma comunidade.
Justiça ainda aguarda julgamento
O processo que apura o feminicídio de Elida do Nascimento ainda não chegou à fase de julgamento. Segundo a advogada Jéssica Souza, que representa a família da vítima, a audiência de instrução, inicialmente marcada para 17 de junho, foi adiada após a defesa do acusado apresentar um atestado médico de 60 dias de afastamento.
“Até o presente momento, a audiência está sem data. Estamos aguardando que o juízo designe uma nova data para a instrução do processo”, explicou.
A advogada informou que o inquérito policial já foi concluído e todos os laudos periciais já integram os autos. A expectativa é que, após a realização da audiência de instrução, o processo avance para a fase de pronúncia e, posteriormente, seja marcada a sessão do Tribunal do Júri.
“Agora é aguardar essa nova data de audiência de instrução e, posteriormente, como ele é réu confesso, o agendamento da audiência do júri. Mas, até o momento, ainda não há data”, afirmou.
Enquanto o julgamento não acontece, o policial militar acusado de matar Elida permanece preso. Inicialmente custodiado no presídio da Polícia Militar, em Campina Grande, ele foi posteriormente transferido para o Presídio Especial da Polícia Militar, localizado no bairro Valentina, em João Pessoa.
Para a família e os amigos de Elida, a demora no andamento processual prolonga o sofrimento e reforça a necessidade de que o caso seja julgado com celeridade. Enquanto aguardam uma resposta da Justiça, mantêm viva a memória da jovem por meio de homenagens e mobilizações nas redes sociais, para que sua história não seja reduzida a mais um número nas estatísticas do feminicídio.

Feminicídio na Paraíba: negras são maioria das vítimas
A Paraíba registrou 71 homicídios de mulheres em 2024, segundo dados do Atlas da Violência 2026. Em 2024, 54 mulheres negras foram assassinadas no estado. A taxa foi de 4 homicídios para cada 100 mil mulheres negras. Entre as mulheres não negras, foram registradas 12 mortes, com taxa de 1,6 homicídio por 100 mil mulheres.
Segundo o estudo, mulheres negras têm risco 2,5 vezes maior de serem vítimas de homicídio na Paraíba em comparação com mulheres não negras.
Uma história que continua
Mesmo meses depois do crime, familiares e amigos seguem mobilizados para que Elida seja lembrada pela mulher que foi e não apenas pela forma como morreu. Nas redes sociais, publicam fotografias, vídeos e mensagens cobrando justiça.
“Ela continua presente todos os dias através das lembranças que deixou, do amor que plantou e da força que tinha. Enquanto o nome dela for lembrado e sua história continuar sendo contada, nossa voz continua ecoando por meio de quem a ama. Elida nunca será apenas uma lembrança”, afirma Kennia.
Para quem permaneceu, preservar sua memória também é uma forma de enfrentar a violência. Porque o feminicídio interrompe sonhos, projetos, redes de cuidado, histórias familiares e futuros inteiros. Contar quem Elida foi é recusar que ela seja reduzida a mais um número nas estatísticas. É afirmar que sua existência continua produzindo sentido, e que sua ausência ainda exige justiça.

