Aos 19 anos, Yasmin Costa dos Santos teve a vida interrompida pelo feminicídio. Cinco anos depois, o responsável pelo crime foi condenado a 16 anos de prisão. Para a família, porém, nenhuma sentença é capaz de devolver a jovem que sonhava viajar, trabalhar e ajudar os pais.
Por Thais Vital
Yasmin Costa dos Santos tinha 19 anos, uma vida inteira pela frente e muitos sonhos para realizar. Jovem universitária, estudante da Universidade Federal de Sergipe (UFS), ela havia sido aprovada em dois vestibulares: Física e Filosofia, escolheu a primeira. Mas, em abril de 2017, esse futuro foi interrompido pelo feminicídio.
Yasmin foi assassinada pelo namorado, em Aracaju/SE, dentro da residência onde ele estava. O crime aconteceu no bairro Coroa do Meio. Segundo as investigações divulgadas à época, a jovem foi morta a golpes de faca. Depois do assassinato, o autor tentou tirar a própria vida e foi socorrido.
A violência contra Yasmin provocou indignação na comunidade acadêmica. Estudantes e professores da UFS realizaram manifestações em sua memória e denunciaram a violência contra as mulheres. A universidade, que era também espaço de construção dos sonhos de Yasmin, passou a carregar a marca de sua ausência.
Cinco anos depois, a condenação
O processo judicial levou anos até chegar ao julgamento. Em 2022, cinco anos depois do assassinato, o responsável pela morte de Yasmin foi condenado a 16 anos de prisão, em regime fechado. A condenação representou uma resposta judicial à violência que tirou a vida da jovem. Mas a sentença não encerra as consequências do feminicídio.
Para a família, o tempo não apaga a ausência. A condenação pode representar uma dimensão de justiça, mas não devolve Yasmin à sua mãe, aos seus familiares, aos amigos e à comunidade que acompanhava sua trajetória.
“Ela era uma menina alegre, sorridente e muito sonhadora”
Para Verônica Santos, mãe de Yasmin, falar da filha é também falar dos sonhos que foram interrompidos.
Yasmin queria viajar, trabalhar e ajudar os pais. Era, segundo a mãe, uma menina alegre, sorridente, inteligente e sonhadora. Gostava de estudar e tinha diante de si diferentes possibilidades para construir sua trajetória.
A aprovação em dois vestibulares expressava parte desse potencial. Física e Filosofia eram caminhos que se abriram para uma jovem que ainda começava a escolher que futuro queria construir.
“Ela tinha o sonho de viajar, trabalhar e ajudar os pais. Era uma menina alegre, sorridente, inteligente e muito sonhadora”, conta Verônica.
O feminicídio não termina com a morte
Valdilene Oliveira Martins, Advogada criminalista de família, idealizadora e presidente do Instituto Ressurgir Sergipe, chama atenção justamente para as consequências que permanecem depois do crime.
“Os impactos coletivos do feminicídio podem ser vistos a olho nu por qualquer pessoa, pois é um crime bárbaro e cruel que desestrutura famílias, gera desamparo, medo e traumas irreversíveis para as crianças, além de produzir uma sensação de impotência e desamparo aos familiares das vítimas, porque revela uma imensa falha na efetivação dos direitos humanos das mulheres”, afirma.
Para Valdilene, o debate público sobre feminicídio ainda costuma se concentrar no crime e na responsabilização do autor, deixando em segundo plano as pessoas que precisam reconstruir a vida depois da perda.
“As perdas trágicas e profundas trazidas pelo feminicídio são pouco comentadas e discutidas porque o debate social é superficial e muitas vezes sensacionalista, limitando-se apenas ao fato criminoso, esquecendo-se de quem sofre o luto e fica refém dos traumas que se estendem por toda a vida”, destaca.
A advogada também aponta a insuficiência da atuação do Estado no acolhimento das famílias atingidas.
“Além do mais, o Estado ainda não é eficiente o bastante para oferecer o suporte psicossocial necessário para os que ficam órfãos e perdem os vínculos familiares”, afirma.
Uma sentença não preenche uma ausência
A condenação do responsável pelo assassinato de Yasmin foi importante para o reconhecimento da responsabilidade pelo crime. Mas justiça não pode ser compreendida apenas como a existência de uma sentença.
É preciso olhar para quem permanece.
Para mães que precisam aprender a viver sem as filhas. Para famílias que carregam o trauma. Para amigos que convivem com a lembrança. Para comunidades que passam a experimentar medo e insegurança. Para crianças que crescem sem suas mães. E para todos os sonhos que são interrompidos quando uma mulher é assassinada.

